terça-feira, 22 de março de 2011

Carnaval.

O céu se divide em cores azuis verdes amarelas laranjas e vermelhas. As nuvens velejam pelo céu em direção à noite.
Uma pipa rebola enquanto um amontoado de crianças comandam-na do chão. É uma segunda de carnaval e a rua está quase deserta.

Um vira-lata perambula pela calçada em busca dos restos que serão seu jantar. Alguém na rua liga o som e agora a voz de algum cantor de axé enche a rua, parece que as coisas vão começar a animar. Ainda estou entediada. A varanda me dá uma visão privilegiada de tudo o que acontece fora, mas melhor seria estar junto do movimento.

Dentro de casa, minhas irmãs se arrumam com direito a todo tipo de maquiagem que se possa imaginar. Todas as cores do céu vão aos seus rostos e o brilho do Sol está em seus olhos.

Eu, que não quero ficar dentro da casa, nem posso sair, escolho a imaginação.

Yes, I don't.

"Do you speak english?"

Momento de tensão. Você está sentado na cadeira da escola nova e logo no primeiro horário tem aula de inglês. O professor entra imponente e tem cara de quem gosta de ver os alunos sofrerem. Após perguntar o seu nome e de qual escola você vem, ele te pergunta se você sabe falar inglês, coisa quase tão clássica quanto os trotes de faculdades. Você sabe o que deve responder, mas sua consciência não deixa.

Afinal, você desenrola um cat, dog e beautiful, mas falar fluentemente são outros quinhentos. Mesmo com toda a sala sabendo o que você ia responder, já que você está no 2º ano do Ensino Médio, e você com as palavras na ponta da língua, saiu aquilo que você temia:
"Yes, I don't."

O choque foi parcial, já que metade da sala ria. Não, você não havia enlouquecido. Só havia sido sincero. Estranho que só um erro pudesse ser tão perfeito para essa ocasião.

Enquanto a sobrancelha do teacher vai arqueando, você trata logo de ir se explicando.
"Bem, eu sei que a resposta que dei é difícil de se ouvir, mas é o que sei que é verdade. Acredito que consigo me comunicar com algum gringo. Se isso é falar inglês, não sei, só sei que consigo fazer. Entretanto, como ainda não conclui nenhum curso e estou aqui para aprender, acredito que não."

O professor pergunta novamente, dessa vez chamando o seu nome, e você se dá conta que passou os últimos 4 minutos pensando no que seria melhor pra dizer.
"Yes, I do." Mentiu.

Melhor seria não causar tumulto no primeiro dia de aula.

sábado, 12 de março de 2011

Swinging.



Tomo impulso com as pernas e me movimento para trás, solto a força que estava fazendo e me deixo ir pra frente. O brinquedo em que estou sentada me impulsiona pra frente. Tenho que me segurar nas correntes amarelas ao lado do assento. Sinto o vento vir contra o meu rosto e meus olhos lacrimejam. Sinto como se nada pudesse me parar e a viagem não fosse ter fim.

Lembro da minha infância e de como esse era meu brinquedo favorito no parquinho de diversões. Acho que pela adrenalina liberada ao subir tão alto, pela sensação de liberdade.

Sinto que estou voltando porque meu cabelo vem à face. Parece que estou sendo puxada a um lugar conhecido. Raízes.
Que sensação de liberdade, que nada... O que importa é ter pra quem voltar no fim do dia. Ir, mas saber que um dia voltará pra onde saiu. Essa segurança é o que me faz gostar tanto.

Aliás, a adrenalina segura, firme, certa é que faz isso. Se é que é possível: a certeza. Ouço mamãe chamar e percebo que ela é a rédea que me puxa de volta pra casa, tal qual as correntes não deixam que o balanço vá longe demais. Longe como meus pensamentos que me fazem voltar ao passado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

18:15


Estava deitada de barriga pra cima no banco, pensando e olhando a lua crescente. Preferia estar ali no sereno, como diziam seus pais, do que em casa. Ali, Ana sentia paz. Ouvia o barulho do vento nas folhas das árvores, o som das vozes dos grilos e das pessoas do outro lado do muro. Cantava baixinho algo que parecia um choro para se embalar. E com o friozinho que estava fazendo só faltava uma coberta pra pegar no sono.

Olhando pra cima, via a lua e uma estrela brilhando forte perto. A primeira estrela que apareceu no céu. Havia outras mais tímidas ao longe, mas para ver estas ela teria que virar a cabeça. Ainda no céu, tinham algumas nuvens densas indo pra esquerda. Quando estas passavam na frente da lua, parecia que ela cantava no seu lugar. Suas crateras eram os olhos e as sombras das nuvens, a boca.

Embaixo dela e do banco, grama. Como não tinha luz alguma acesa, o chão estava negro, como um reflexo da noite num lago. O pé de jasmim ao lado do banco estava deixando cair suas flores. Focos de luz na noite.

Com o fim da música, ela ia adormecendo. Seus olhos começaram a pesar e só via metade da lua. Entregou-se ao sono. Dessa vez ela faria algo que não fazia há anos. Ela sonharia.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sons e luzes que passam.

O marido saiu faz umas horas e ela resolveu ficar a sua espera. Sentou-se na poltrona verde-musgo tão querida por ele; e calma, por fora, ouviu as badaladas do relógio. Pegou um dos copos que ele usava, de vidro, e o encheu com um líquido que todos diziam fazer relaxar e esquecer os problemas.

A cada zunido de carro passando e fresta de luz que entrava por baixo da porta, ela ansiava que fosse o farol do carro dele e que ele estava saindo, vindo para ela.

Tomou um gole e resolveu andar pela casa, deveria ajudar a fazer o tempo parecer passar mais rápido. Ah, como tudo aquilo lembrava ele: os charutos em cima da mesa, o modo de desorganização ajustada que estes estavam dispostos e principalmente o cheiro: fumo, menta e colônia pós-barba que estavam até nas cortinas. Os chinelos confortáveis embaixo da poltrona que há pouco estava sentada e o jornal mal dobrado no braço desta.

Sabia que com tanta ansiedade não conseguiria dormir, entretanto foi se deitar. Amanhã seria um dia longo e... Quem ela queria enganar? O único motivo que a fez quase correr escada acima foi o som de chaves mais alto que os outros. Não queria que ele chegasse e percebesse que ela, mesmo com o casamento desmoronando, não conseguia ficar em paz enquanto ele não chegasse.

Tinha aprendido um amor diferente com ele, mas não só isso. Aprendera a ter orgulho também. Deitou-se e depressa se cobriu, fechou os olhos. Ouviu-o entrar, trocar de roupa, e não precisava abrir os olhos; tinha certeza que ele estava lá. Mas só conseguiu dormir quando sentiu a presença dele ao seu lado.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dois olhos negros.

Ela olhou para cima e lá estavam aquelas duas orbes a encarando, acompanhadas de um sorriso presunçoso e encantador. Fazia duas horas que os amigos tinham se reunido e ele havia chegado. Apesar de não ser o ideal de beleza, ela havia se encantado com ele. Tanto que não emitiu uma vogal desde que o vira pela primeira vez.

Enquanto os outros falavam, sua mente vagava de ponto em ponto. Já seus olhos sempre voltavam aos dele. Os olhares furtivos eram de ambos. Ela corava e abaixava os olhos, enquanto ele continuava a olhá-la como se o infinito ali estivesse.

Queria muito levantar a cabeça e encará-lo de volta, desvendar o segredo que aqueles olhos possuíam. Eram escuros e infindos como a noite e pareciam querer contar uma história diferente a cada bater de cílios do seu dono.

Não importava mais o assunto que rolava na mesa, devia ser algo acerca da população chinesa ou guerras. A única coisa que a interessava eram os olhos. Xícaras de café preto e fumegante numa noite fria. Repletos de aconchego e calor, mistério e misticidade que ela adoraria descobrir.

Ai! Se ele chegasse mais perto e tomasse seus lábios em um beijo. Ai! Se os braços dele a livrassem do frio e a dessem calafrios.

Continuou afastada da conversa que se estendia ao passar da hora. Preferiu se perder no mundo novo oferecido pelos olhos do cara sentado ao seu lado, esse deveria ser bem mais interessante que o mundo onde ambos estavam afastados demais.

Descascando terceiros

Estava sentada esperando minha vez de ir ao balcão colocar uma carta pra envio. Um senhor na minha frente exibia raros fios brancos e uma careca lustrosa. Tinha também um sorriso bondoso. Ele parecia o tipo de pessoa que tinha sido casado durante uns 40 anos e que só havia tido um amor em toda a vida.

Deveria contar estórias, grandes epopeias aos netos, para que estes tivessem a imaginação alimentada. Tem cara de quem toma chá de camomila todo dia na mesma hora, porque o médico proibiu o café. Dorme com as galinhas e acorda com os galos, e não gosta de descansar sem precisar. "Deixa pra descansar quando morrer."

Deve gostar de ler jornal, mas não deve ser fã de literatura lírica. Pra ele, o amor de sua esposa lhe bastava. E na música! Ouve Bartolomeu Galeno e boleros e tangos que falam de amor. Deve ter um neto preferido, que os outros dizem ser "a sua cara", e para este sempre dá 10,00 reais a mais no fim de semana. Seu bordão deve ser comum a muitos de sua idade: "No meu tempo...".

Imaginei tantas coisas da vida desse senhor que deu vontade de sentar ao seu lado e dizer: "Bom dia, como vai?" e escutar todos os causos que ele quisesse me contar, inventados ou não. Entretanto, ouvi o som que indicava que o 421 havia sido chamado para depositar a carta.

Carta, coisa que era muito mais valorizada no tempo do senhor que estava a sua frente.