A perna que apoia a coxa bate insistentemente no chão. Toc toc toc toc faz a sapatilha rosa no piso de madeira. Ele estava atrasado. Após os olhares tortos do senhor sentado à mesa ao lado, resolveu esperar quieta. Como será que ele estava após tantos anos? Com certeza com a barba grande. Engraçado. Nele, ficava perfeitamente bem.
Ele chegou desfilando, felino, cabeça baixa e os olhos levantados. Atento, reparou na saia, na blusa e no sorriso. Ou talvez estivesse só analisando a presa. Ela nunca saberia. Chegou tímido, sentou, parecia que até que não eram próximos. Bastaram alguns minutos pra que tudo voltasse ao normal: eram eles dois novamente. Como se nem tivessem se separado.
Pareciam estar num livro: Memórias de Um Sargento de Milícias, entre um “beliscão e uma pisadela” se via amor. Amor porque a semelhança entre um beliscão e um amor arrebatador é que ambos deixam marcas e talvez, mas só talvez, essa fosse a intenção deles. Ele ia pra longe e ela ficaria. E as marcas também.
Ou só pareciam duas crianças. Quê é mais puro que amor infantil, primeiro amor? E essas coisas que nos atingem sem nem sabermos como começou e o que é. Andaram e riram e conversaram amenidades e tantas besteiras e mesmo com tantos “es”, não se cansaram.
Ela podia passar a tarde inteira com a cabeça no ombro dele, com a barba dele roçando na sua testa. Aproveitando as brincadeiras pra segurar sua mão. Ou fazendo nada, como na maior parte do tempo. E ele sabia disso. E ele gostava que ela fizesse isso porque realmente queria fazer.
No dia que ele foi viajar, ela o acompanhou à rodoviária. Ela saiu da casa dela e ele da dele. Apostaram corrida, ambos não querendo chegar, ambos querendo que o tempo parasse. O prêmio seriam dois abraços. Eles chegaram ao mesmo tempo, esperaram e quando a voz poliglota anunciou que o ônibus sairia nos próximos 15 minutos, ela o deixou na área de embarque. Hora de entregar o prêmio ao vencedor.
“Como se dá dois abraços quando a gente não quer se separar?”, ele disse.
E se separaram. Ele a beijou na testa e disse que eles se veriam quando ele voltasse. Ela o mandou ir andando antes porque não gostava de dar as costas à felicidade. E ele foi. Ela deu meia volta e andou rápido.
Ao chegar à parte envidraçada da rodoviária que dá perfeita visão da área de embarque, virou-se. Ele a observava. Acenou e foi embora. Ela não disse adeus. Porque dizer adeus seria colocar um ponto final num sonho. E ela não queria acordar.
domingo, 29 de junho de 2014
sábado, 8 de março de 2014
Sobre o dia internacional da mulher
Feliz dia da mulher. Pra todas, mas principalmente pras que fazem jus ao dia da criação dessa data.
Falo das que lutam para ter um salário igual ao de um homem que desempenhe a mesma função que a sua. Das que lutam pelo respeito que seu intelecto merece independente de vestirem minissaia ou burca. Das que lutam pelo respeito que seu corpo merece independente de saírem de casa as 0h e voltarem as 5h.
Feliz dia da mulher praquelas que não aceitam o que a mídia diz que é bonito e se valorizam, independente de raça, tipo de cabelo e peso. E um dia ainda mais especial pras que, além de valorizarem a si, valorizam a mulher ao seu lado, sem chamar de puta a coleguinha que transa quando quer, porque sabe que o corpo e a decisão são dela.
Falando em valorizar a si mesma, feliz dia da mulher pra quem escolheu não se depilar mais porque “isso é coisa de uma sociedade opressora e ditatorial sobre a aparência da mulher” e pra quem quer continuar fazendo chapinha e usar silicone porque beleza é subjetivo e é assim que ela se sente bem. Porque elas, ambas, são livres e podem fazer o que quiserem com seus corpos.
Feliz dia da mulher pra mulher que é dona de casa e tem que cuidar de 10 panelas, 5 filhos e um marido. Mas que fez isso por escolha e não por pressão. E sobre escolha: feliz dia da mulher pra quem escolheu não ter filhos e marido, porque a vida é dela e não de uma sociedade vendedora de família de comercial de margarina. Pras engenheiras, motoristas, cabeleireiras, dançarinas de boate, vendedoras, presidentas e professoras que sustentam e cuidam de si próprias, feliz dia.
Feliz dia da mulher às que tem coragem de denunciar o marido/namorado/pai/irmão que cometem violência doméstica ou sexual. Mais difícil que denunciar um cara desconhecido de uma van é denunciar alguém de dentro da sua casa. E feliz dia da mulher aquelas que ajudam as que ainda não tiveram essa coragem, sem julgar, só pelo apoio. Pras mulheres que não denunciaram ainda, felicitações e uma dica: saibam que a culpa não foi sua, nem do decote que você estava usando.
É, principalmente, pra essas mulheres que desejo um dia feliz, pras que entendem o significado da morte de centenas de mulheres no dia 8/03/1857 na fábrica de tecidos em Nova York por lutarem por seus direitos trabalhistas e humanos. Como elas, façamos valer nossas opiniões e exijamos respeito e igualdade acima de tudo, todo dia.
PS. Pra quem, infelizmente, continua acreditando que o dia da mulher é só sobre ser feminina e nem imagina que existe o “feminismo”... Procure se informar e tenha um bom dia.
Falo das que lutam para ter um salário igual ao de um homem que desempenhe a mesma função que a sua. Das que lutam pelo respeito que seu intelecto merece independente de vestirem minissaia ou burca. Das que lutam pelo respeito que seu corpo merece independente de saírem de casa as 0h e voltarem as 5h.
Feliz dia da mulher praquelas que não aceitam o que a mídia diz que é bonito e se valorizam, independente de raça, tipo de cabelo e peso. E um dia ainda mais especial pras que, além de valorizarem a si, valorizam a mulher ao seu lado, sem chamar de puta a coleguinha que transa quando quer, porque sabe que o corpo e a decisão são dela.
Falando em valorizar a si mesma, feliz dia da mulher pra quem escolheu não se depilar mais porque “isso é coisa de uma sociedade opressora e ditatorial sobre a aparência da mulher” e pra quem quer continuar fazendo chapinha e usar silicone porque beleza é subjetivo e é assim que ela se sente bem. Porque elas, ambas, são livres e podem fazer o que quiserem com seus corpos.
Feliz dia da mulher pra mulher que é dona de casa e tem que cuidar de 10 panelas, 5 filhos e um marido. Mas que fez isso por escolha e não por pressão. E sobre escolha: feliz dia da mulher pra quem escolheu não ter filhos e marido, porque a vida é dela e não de uma sociedade vendedora de família de comercial de margarina. Pras engenheiras, motoristas, cabeleireiras, dançarinas de boate, vendedoras, presidentas e professoras que sustentam e cuidam de si próprias, feliz dia.
Feliz dia da mulher às que tem coragem de denunciar o marido/namorado/pai/irmão que cometem violência doméstica ou sexual. Mais difícil que denunciar um cara desconhecido de uma van é denunciar alguém de dentro da sua casa. E feliz dia da mulher aquelas que ajudam as que ainda não tiveram essa coragem, sem julgar, só pelo apoio. Pras mulheres que não denunciaram ainda, felicitações e uma dica: saibam que a culpa não foi sua, nem do decote que você estava usando.
É, principalmente, pra essas mulheres que desejo um dia feliz, pras que entendem o significado da morte de centenas de mulheres no dia 8/03/1857 na fábrica de tecidos em Nova York por lutarem por seus direitos trabalhistas e humanos. Como elas, façamos valer nossas opiniões e exijamos respeito e igualdade acima de tudo, todo dia.
PS. Pra quem, infelizmente, continua acreditando que o dia da mulher é só sobre ser feminina e nem imagina que existe o “feminismo”... Procure se informar e tenha um bom dia.
Marcadores:
dia da mulher,
feminismo,
feministas,
mulher
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Madalena
Madalena cruzava a Avenida a pé às 4h da manhã. Carregava na mão direita os sapatos dourados de salto e na mão esquerda uma bolsa pequena com o celular, a carteira de identidade e o dinheiro do táxi que não pegou. Preferiu guardar o dinheiro pra próxima festa e caminhar. Já que fazia uma noite tão estrelada, aproveitaria! “Por que não?” E a lembrança da pergunta que se fez no início da noite ecoou: Por que não aproveitar?
O vento balançava sua saia vermelha quando ela fechou a porta. Ao sair de casa, ouviu a voz da mãe perguntando aonde iria. Não sabia dizer. Só sabia que tinha que sair sem olhar pra trás pra sossegar. As quatro paredes que sustentavam sua casa agora pareciam encolher sobre sua cabeça. As luzes da rua a chamavam e os sons de carro passando eram alimento pra sua alma frenética.
Entrou no primeiro bar que o movimento parecia bom, abriu a primeira cerveja e é aqui que começa a noite. No fundo do copo, o reflexo de seus pensamentos que precisam de ordem. Desprevenida, ela se afoga como se uma onda a tivesse pego num caldo, é fácil se perder entre os problemas quando se está só. Balança a cabeça e pensa: "Meu problema é que eu não consigo parar de pensar". Olhando ao redor, tanta gente conhecida. Encontra uma amiga da faculdade e ela lhe fala de uma festa na casa de um amigo. Pra lá elas vão.
No carro, toca algo que faz as janelas estremecerem e o coração acompanhar a batida do bumbo da bateria. Param no posto de gasolina, compram um litro de vodca e seguem. O mesmo vento que balançou a saia entrava agora pela janela e esvoaçava os cabelos. Olhando os pneus girarem e as casas ficando pra trás, ela se lembrava de tudo que havia deixado no passado. Pra Madalena, o bom da vida é viver sem saber o que é bom ou mau, só sabendo o que quer, fazendo as regras do seu jogo e quem quiser, que jogue junto. Chegam ao apartamento do amigo da amiga da faculdade, apartamento pequeno num bairro nobre, cheio de gente, do jeito que é bom.
O zumbido das vozes, a música alta, meia carteira de cigarros e uma caixa de cerveja depois, ela esqueceu. Anestesiou-se de tudo na varanda do décimo terceiro andar, de onde se tem uma bela vista da cidade. As luzes das casas ainda acesas levaram seus pensamentos em cada janela iluminada, em cada vida que era completamente diferente e numa hipótese de como seria sair de si mesma e entrar noutra vida, mais fácil, menos conturbada. Precisava de outra cerveja, já estava cansada desse "lembra-esquece" de problemas.
Dentro da casa, seus pés se movem com o som enquanto procura quem irá guiá-la esta noite. O mais interessante estava encostado na parede, alto, moreno, cara de vocalista de banda de rock britânica. Pelo que sabia, era o fornecedor da noite. Ouviu os amigos falarem algo relacionado a ecstasy enquanto dançava por perto e sorriu. Achado.
Conversa vai, após saber que Heitor acabara de voltar de um intercâmbio, uma pílula depois e risadas e gemidos, ela estava deitada sobre o ombro dele na cama, do outro lado da cidade. Pelos seus pensamentos sóbrios percebeu que está sozinha, mesmo quando acompanhada. Mesmo com ele ao seu lado, mesmo com qualquer alguém ao seu lado. Dentro dela, ela sempre estaria só. Levantou-se se cobrindo com o lençol e foi para o banheiro. Nem se encarou no espelho, vestiu-se e partiu. Ele dormia serenamente, melhor não acordá-lo.
Daí chegou à Avenida, resolveu tirar os sapatos pra caminhar melhor. No caminho de volta pra casa, resolveu voltar a si. Percebeu que essa necessidade de adrenalina, essa necessidade de sempre precisar de alguma coisa, nada mais era do que sua alma gritando por preenchimento. Tinha tudo, mas algo sempre estava faltando. E a sensação de complemento, mesmo que momentâneo, era viciante.
O sol chegava ao céu quando Madalena chegou em casa. Ao entrar, beijou a testa da mãe que dormia no sofá da sala. Passou pro quarto e jogou-se na cama. Dormiu de saia vermelha, sapato dourado na mão e barriga vazia. Entretanto, com o peito cheio.
O vento balançava sua saia vermelha quando ela fechou a porta. Ao sair de casa, ouviu a voz da mãe perguntando aonde iria. Não sabia dizer. Só sabia que tinha que sair sem olhar pra trás pra sossegar. As quatro paredes que sustentavam sua casa agora pareciam encolher sobre sua cabeça. As luzes da rua a chamavam e os sons de carro passando eram alimento pra sua alma frenética.
Entrou no primeiro bar que o movimento parecia bom, abriu a primeira cerveja e é aqui que começa a noite. No fundo do copo, o reflexo de seus pensamentos que precisam de ordem. Desprevenida, ela se afoga como se uma onda a tivesse pego num caldo, é fácil se perder entre os problemas quando se está só. Balança a cabeça e pensa: "Meu problema é que eu não consigo parar de pensar". Olhando ao redor, tanta gente conhecida. Encontra uma amiga da faculdade e ela lhe fala de uma festa na casa de um amigo. Pra lá elas vão.
No carro, toca algo que faz as janelas estremecerem e o coração acompanhar a batida do bumbo da bateria. Param no posto de gasolina, compram um litro de vodca e seguem. O mesmo vento que balançou a saia entrava agora pela janela e esvoaçava os cabelos. Olhando os pneus girarem e as casas ficando pra trás, ela se lembrava de tudo que havia deixado no passado. Pra Madalena, o bom da vida é viver sem saber o que é bom ou mau, só sabendo o que quer, fazendo as regras do seu jogo e quem quiser, que jogue junto. Chegam ao apartamento do amigo da amiga da faculdade, apartamento pequeno num bairro nobre, cheio de gente, do jeito que é bom.
O zumbido das vozes, a música alta, meia carteira de cigarros e uma caixa de cerveja depois, ela esqueceu. Anestesiou-se de tudo na varanda do décimo terceiro andar, de onde se tem uma bela vista da cidade. As luzes das casas ainda acesas levaram seus pensamentos em cada janela iluminada, em cada vida que era completamente diferente e numa hipótese de como seria sair de si mesma e entrar noutra vida, mais fácil, menos conturbada. Precisava de outra cerveja, já estava cansada desse "lembra-esquece" de problemas.
Dentro da casa, seus pés se movem com o som enquanto procura quem irá guiá-la esta noite. O mais interessante estava encostado na parede, alto, moreno, cara de vocalista de banda de rock britânica. Pelo que sabia, era o fornecedor da noite. Ouviu os amigos falarem algo relacionado a ecstasy enquanto dançava por perto e sorriu. Achado.
Conversa vai, após saber que Heitor acabara de voltar de um intercâmbio, uma pílula depois e risadas e gemidos, ela estava deitada sobre o ombro dele na cama, do outro lado da cidade. Pelos seus pensamentos sóbrios percebeu que está sozinha, mesmo quando acompanhada. Mesmo com ele ao seu lado, mesmo com qualquer alguém ao seu lado. Dentro dela, ela sempre estaria só. Levantou-se se cobrindo com o lençol e foi para o banheiro. Nem se encarou no espelho, vestiu-se e partiu. Ele dormia serenamente, melhor não acordá-lo.
Daí chegou à Avenida, resolveu tirar os sapatos pra caminhar melhor. No caminho de volta pra casa, resolveu voltar a si. Percebeu que essa necessidade de adrenalina, essa necessidade de sempre precisar de alguma coisa, nada mais era do que sua alma gritando por preenchimento. Tinha tudo, mas algo sempre estava faltando. E a sensação de complemento, mesmo que momentâneo, era viciante.
O sol chegava ao céu quando Madalena chegou em casa. Ao entrar, beijou a testa da mãe que dormia no sofá da sala. Passou pro quarto e jogou-se na cama. Dormiu de saia vermelha, sapato dourado na mão e barriga vazia. Entretanto, com o peito cheio.
domingo, 27 de outubro de 2013
Tempo de escrever.
Ando assim ,
como se fosse demais
pra caber
dentro de mim
Mais parece o movimento
dos ponteiros do relógio
marcando o tempo
que faz que não escrevo
Esse desconforto,
Sentimentos
sou eu cheia de preenchimento
pra papel em branco
Sensação
que mais parece
duas placas tectônicas
em movimento
Como um vulcão
expelindo lava,
eu vomito palavras
pra ficar bem.
como se fosse demais
pra caber
dentro de mim
Mais parece o movimento
dos ponteiros do relógio
marcando o tempo
que faz que não escrevo
Esse desconforto,
Sentimentos
sou eu cheia de preenchimento
pra papel em branco
Sensação
que mais parece
duas placas tectônicas
em movimento
Como um vulcão
expelindo lava,
eu vomito palavras
pra ficar bem.
sábado, 28 de setembro de 2013
Preto e quente ou Mnemotécnicas da dor
Ela pegou a xícara da pia sem segurar na asa. No segundo seguinte, largou no susto e a viu quicando no chão com o impacto. Não quebrou, mas rachou. A mão ficou vermelha. O café se espalhou lentamente pelo piso formando dedos compridos de gotas e foi parar debaixo da geladeira. Iria dar trabalho pra secar.
Colocou a mão debaixo da torneira aberta pra aliviar a queimadura. Enquanto a água corria por entre seus dedos, os pensamentos voltavam pra quando tudo começou. Os sons, as luzes e a batida inebriante que se misturavam com a fumaça dos cigarros ao redor. O show foi inesquecível, mas não pela música. A maior parte das lembranças que ela tinha desse sábado de setembro tinha relação direta com Ele. Sejam as lembranças boas ou as ruins.
Catou a xícara do chão, pegou um pano, abaixou-se e limpou. Pegou outra xícara, pegou o bule e colocou mais café. Ela é do tipo que não desiste na primeira derrota. Dessa vez, segurando a xícara pela asa, levou a porcelana aos lábios entreabertos. Desnorteada pelo ardor na mão, queimou a língua. Incrível como uma coisa que machucara há pouco é tão facilmente esquecida. Como se nem tivesse acontecido.
Isso de esquecer fácil já nasce com o ser humano. Desde crianças somos apresentados a esse método de superação. Você cai da escada, sua mãe assopra seu machucado, mas depois de 10 minutos de choramingar, você volta pro topo da escada. Parece que as lembranças ruins são voláteis, enquanto que as boas grudam como solda no seu cérebro.
Ela nem se dá conta e do nada, as lembranças que mantém tão escondidas no fundo da sua alma invadem seus pensamentos. Ah, seus pensamentos... Se fossem só eles. O cheiro do perfume e de cerveja, o contato do abraço, dos lábios contra a bochecha, da barba contra a pele. É como se seu corpo necessitasse do contato.
Mas, apesar da existência desse novo contato tão necessário, o desenrolar do enredo é exatamente igual ao anterior. Com lembranças ruins. E ao que Nietzsche disse: “apenas o que não cessa de causar dor é que fica na memória”, ela rebate com: o que fica na memória é o que te faz bem, as lembranças que causam dor são facilmente esquecidas para que se dê de cara com a parede muitas e muitas vezes.
A mão ainda doía, mas a língua doía mais. É como aquele ditado que diz que pra parar uma dor, é só sentir outra. Acredito que isso também funcione com relacionamentos: pra esquecer a dor de um, só colocando a dor de um novo por cima. É um ciclo vicioso.
Ela despejou o café na pia e resolveu beber chá.
Colocou a mão debaixo da torneira aberta pra aliviar a queimadura. Enquanto a água corria por entre seus dedos, os pensamentos voltavam pra quando tudo começou. Os sons, as luzes e a batida inebriante que se misturavam com a fumaça dos cigarros ao redor. O show foi inesquecível, mas não pela música. A maior parte das lembranças que ela tinha desse sábado de setembro tinha relação direta com Ele. Sejam as lembranças boas ou as ruins.
Catou a xícara do chão, pegou um pano, abaixou-se e limpou. Pegou outra xícara, pegou o bule e colocou mais café. Ela é do tipo que não desiste na primeira derrota. Dessa vez, segurando a xícara pela asa, levou a porcelana aos lábios entreabertos. Desnorteada pelo ardor na mão, queimou a língua. Incrível como uma coisa que machucara há pouco é tão facilmente esquecida. Como se nem tivesse acontecido.
Isso de esquecer fácil já nasce com o ser humano. Desde crianças somos apresentados a esse método de superação. Você cai da escada, sua mãe assopra seu machucado, mas depois de 10 minutos de choramingar, você volta pro topo da escada. Parece que as lembranças ruins são voláteis, enquanto que as boas grudam como solda no seu cérebro.
Ela nem se dá conta e do nada, as lembranças que mantém tão escondidas no fundo da sua alma invadem seus pensamentos. Ah, seus pensamentos... Se fossem só eles. O cheiro do perfume e de cerveja, o contato do abraço, dos lábios contra a bochecha, da barba contra a pele. É como se seu corpo necessitasse do contato.
Mas, apesar da existência desse novo contato tão necessário, o desenrolar do enredo é exatamente igual ao anterior. Com lembranças ruins. E ao que Nietzsche disse: “apenas o que não cessa de causar dor é que fica na memória”, ela rebate com: o que fica na memória é o que te faz bem, as lembranças que causam dor são facilmente esquecidas para que se dê de cara com a parede muitas e muitas vezes.
A mão ainda doía, mas a língua doía mais. É como aquele ditado que diz que pra parar uma dor, é só sentir outra. Acredito que isso também funcione com relacionamentos: pra esquecer a dor de um, só colocando a dor de um novo por cima. É um ciclo vicioso.
Ela despejou o café na pia e resolveu beber chá.
sábado, 11 de maio de 2013
Interdisciplinaridade de sentimentos.

Depois de horas no telefone, percebo que nossa ligação é bem mais profunda que isso. É como se fosse entre átomos. Você se agarra a mim como se fosse o Hélio e eu os seus míseros dois elétrons. A minha eletroafinidade é baixa, mas a sua foi grande o bastante para nós dois.
E não só nisso somos opostos: eu corro, você fica parado. Eu coro, você acha engraçado. Eu choro, você ri. Dá a hora de eu voltar, quando tá na hora de você ir. Você faz malabares, eu sou do tipo que fica na plateia e assiste com vontade de fazer. Eu sou dramática, faço rodeios, e você? Vai direto ao ponto. Vale lembrar aqui, de um modo bem clichê, que os opostos se atraem.
Entretanto, nada disso importa, porque com você a teoria das cordas é bamba! A saudade é relativa e inversamente proporcional: quanto menor a distância, maior a vontade de ficar junto. Nessa história, um mais um pode não ser dois. 1+1 dá 1, de tão unidos que ficam.
E mesmo sem a nossa química ser perfeita, a gente faz um balanceamento pra atingir o equilíbrio. Com você, parece que tá tudo no canto certo e em perfeito funcionamento: eu atinjo a homeostase e se brincar, até o Nirvana.
Crônicas chegam ao fim com um ponto final, as coisas da vida terminam em morte e uma hora, os reagentes param de reagir. Ainda bem que as semelhanças só se aplicam às minhas analogias, e nunca ao nosso final. Pra nós, um final feliz, de preferência.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Manteiga derretida.
Por mais que todos insistam em dizer que chorar não vale a pena e que é feio, não existe remédio melhor para tristeza. Sábias são as crianças que choram quando dá na telha e vivem sem mágoas atreladas a si.
Pararei de usar o termo "chorona" para caçoar das minhas amigas que choram com filmes e novelas. Por que isso tem que ser uma coisa ruim, afinal? A partir de hoje, não segurarei mais lágrimas! E se molhar o papel enquanto escrevo, melhor ainda, mais emoção ao texto.
Mas, antes disso, não me sentirei mal comigo mesma quando chorar. Penso assim: por mais chato que seja limpar o quarto, é necessário, e quando terminado o trabalho, faz muito bem. Chorar é limpar a alma, tirar as teias de aranha dos velhos pensamentos que machucam.
Não chorarei por tudo, mas me permitirei encher e esvaziar quando for preciso. Sem o "eu não aguento mais chorar", porque é chorando que se aguenta certas porradas.
Pararei de usar o termo "chorona" para caçoar das minhas amigas que choram com filmes e novelas. Por que isso tem que ser uma coisa ruim, afinal? A partir de hoje, não segurarei mais lágrimas! E se molhar o papel enquanto escrevo, melhor ainda, mais emoção ao texto.
Mas, antes disso, não me sentirei mal comigo mesma quando chorar. Penso assim: por mais chato que seja limpar o quarto, é necessário, e quando terminado o trabalho, faz muito bem. Chorar é limpar a alma, tirar as teias de aranha dos velhos pensamentos que machucam.
Não chorarei por tudo, mas me permitirei encher e esvaziar quando for preciso. Sem o "eu não aguento mais chorar", porque é chorando que se aguenta certas porradas.
Assinar:
Postagens (Atom)
