terça-feira, 3 de maio de 2011

Vida Real

Se me perguntassem por que eu estou aqui, sentada no banco desse bosque, não saberia responder.

Mentira, saberia sim, mas eu acharia melhor não o fazer. Ir no mais íntimo dos sentimentos sempre é perturbador, e como todo ser humano: eu prefiro o caminho mais fácil. Entretanto, não o mais simples.

A justificativa de eu estar aqui não seria um "Eu estava cansada de ficar em casa" e sim "Parecia que o teto ia esmagar minha cabeça de tão sufocada que eu estava, tive que sair voando e até esqueci o prendedor de cabelo".

Também queria escrever, a única coisa que acaba com minha ansiedade. Podia escrever em casa, mas ainda acho muito simples escrever em casa. Tenho que ter alguma coisa que enfeite de onde vem a criatividade para eu escrever esse projeto de crônica.

Aí eu saí, fiquei entre ir a um supermercado, ver o corre-corre das pessoas em busca das promoções relâmpago e escrever sobre a falta de tempo, ou vir pro bosque e só ver. Talvez escrever o que sentia ou descrever o farfalhar das árvores. Segunda opção foi mais fácil. Mas quem disse que eu não posso dar aquela enfeitada? Já falei que não gosto de nada simples. Então: achei que o ar puro iria me fazer limpar as idéias e me distrair... Pra não dizer que foi somente por estar mais perto do bosque.

Acabou que chegando aqui, ouvindo Engenheiros do Hawaii e relembrando tudo que eu tinha pensado no caminho, decidi escrever sobre minhas ações cerebrais, vulgares pensamentos, e percebi que vivo tentando fazer a minha vida parecer menos monótona do que realmente é, e como se fosse pouco, querendo que ela seja lírica e cinematográfica. Isso tudo pra que tenha graça. Hábitos de escritora, que fazer?

Mas com isso, percebi que sempre vivemos querendo mais do que temos, não importa o quê. Agora eu quero mais romantismo, aventura e um tchan. Vou passar na padaria na volta pra casa e comprar um sonho bem recheado pra ver se enfeita a realidade.

"Ah, vida real, onde é que eu troco de canal?"

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Too much.

“Corrupto demais,/política demais,/tristeza demais./O interesse tem demais!/Violência demais,fome demais,/falta demais,/promessa demais.”

Sempre ouvi dizerem que tudo demais não presta... Nem precisa ser substantivo ruim como na música d’O Rappa. Quer ver?!

Amor demais. Amor demais sufoca. Amor demais enjoa, dá agonia de tanta presença. Cada um precisa de seu tempo e espaço e isso é fato desde que o mundo é mundo. Como é que os relacionamentos iam funcionar se as pessoas tivessem 100% do tempo junto de quem se gosta? Não haveria desejo, afinal não se deseja o que já se possui.

Alegria demais parece coisa de quem é infeliz. E coisa de quem finge. Seja feliz, mas seja feliz não pra parecer pros outros, e sim pra você. Tem gente que finge que é feliz pra agradar e sai com um sorriso de todos os dentes, quando por dentro se é banguela. De que adianta ser tão feliz por fora se não é de verdade?

Dinheiro demais. OK! Sei que vão me atirar pedras por dizer isso e muitos “o 4º parágrafo é mentira blábláblá”, mas eu, sinceramente, não sei pra quê gente que já tem dinheiro quer mais dinheiro ainda. Quando me perguntam “Qual seu sonho?”, eu não respondo que é ganhar na loteria, como a maioria das pessoas. Felicidade vem com dinheiro, mas quem disse que precisa ser o dinheiro do mundo todo? Se eu não ficar cheia de dívidas e tiver comida na minha mesa todos os dias, tô de boa.

Esses foram só três exemplos, mas não são os únicos. Foi só pra perceberem que tudo tem dosagem certa. Nem demais, nem de menos. Como distância: não precisa ser vizinho e se ver todos os dias, entretanto não precisa ir morar no Acre.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Aniversário alheio.



Passos para lá e para cá no meio da sala, os nós dos dedos já brancos de tanto serem apertados e estalados; a boca se mexe recitando um discurso que nunca está bom o suficiente, só porque é para ele. Ele. É com ele que vai falar e é por isso que precisa que seja perfeito.

E se não for ele a abrir à porta? Qual é a melhor reação? Foi para frente do espelho e começou a ensaiar o que diria se a mãe dele abrisse a porta. Se já estava sem graça de falar com ele, avalie com a mãe. Começo de namoro é sempre assim.

"João está aí?" Não, muito direto, parece que ela não tem educação.
"Bom dia, o João se encontra?" Isso foi tão educado que chega a ser falso. Ninguém é tão educado assim.
“Oi, o João tá aí?" Ótimo, espontâneo e sorridente. Com sorte ele não estará.

Estranho ela escolher algo tão espontaneamente previsto. Chega a ser hilário isso de se preparar tanto para algo que sempre sairá melhor se for espontâneo. Mais hilário ainda é querer fazer algo e torcer pra não ter que fazer. A contrariedade feminina contrasta com sua indecisão certa.

E quando ele aparecer? "Parabéns João, tudo de bom, é só uma lembrancinha". Isso e um sorriso falso. Nada mais sem graça. Nada mais programa do Gugu no domingo.
"Feliz aniversário, João. Muita luz, que Deus te abençoe, muita paz, saúde..." Isso e uma roupa azul com bolinhas brancas e ele pensa que é a avó falando.

Melhor deixar rolar, já são quase quatro e meia e ela está se atrasando. Vai saindo de casa, pede ajuda pra tudo quanto é santo que melhore as ideias. Incrível que quando não se quer, sai um conto, mas um simples Happy Birthday quase a faz arrancar os cabelos. Falando em Happy Birthday, como Marilyn Monroe conseguia cantar isso saindo de um bolo de um modo tão "I don’t care" pro presidente Kennedy, enquanto ela não consegue nem achar uma frase expressiva para seu novo namorado. Não desmerecendo o namorado, claro.

Tocou a campainha da casa e esperou, um minuto parece um dia, uma eternidade. Ai, que exagero. Ele abre a porta. E agora? Não ensaiou pro caso de ele atender a porta, ensaiou pro caso da mãe dele atender e ir chamá-lo. Isso era totalmente diferente. Não deu tempo de pensar no que fazer ou falar.

“Oi, meu amor.”
E veio o abraço, esqueceu o que tinha ensaiado e o que não tinha também, esqueceu até que tinha presente nas mãos. Havia se preocupado tanto com a cereja do bolo que esqueceu que o mais importante, o próprio bolo, o fato de ter lembrado. Porque o que vale é o que importa.

sábado, 26 de março de 2011

Me & Mr. Jones.


O banco em que eu sentei estava gelado e minhas pernas estavam ficando dormentes. O céu estava cheio de nuvens e elas pareciam estar ao alcance dos dedos, bastaria eu esticar a mão... As folhas das árvores dançavam com o vento e faziam um barulho de arrepiar a espinha. Olhei ao redor e para o relógio. Como sempre, ele estava atrasado.

Havia uma sombra muito parecida com a de uma pessoa no canto da parede. Homem. Parecia muito com um maníaco que não hesitaria em me matar. Ótimo, estava começando a ter devaneios. A solidão faz dessas coisas com qualquer um, ou enlouquece de vez ou faz uma grande viagem a si mesmo. Senti um arrepio na nuca e me virei, lá estava aquele rosto, próximo demais.

"Boa noite", ele disse com um olhar de estranho.
"Atrasado" e entortei a boca.

Olhei para o canto na parede e lá só havia o costumeiro pé de acerola, nada de sombra. Olhei para o céu enquanto ele sentava ao meu lado e as nuvens haviam passado. Agora parecia que tinham jogado purpurina prateada num tecido preto: eram tantas estrelas que nem me atrevi a contar, parecia que o céu estava em festa pela chegada dele.

O rosto do rapaz vinha em direção ao meu.

Não existia mais som das folhas contra o vento, nem nuvens, nem frio, nem sombra. Só eu e ele. O arrepio que eu sentia já não era de frio e sim de felicidade por finalmente tê-lo perto. Não existiam mais monstros prontos para atacar, nem a raiva do atraso. Existiam abraços, beijos e nós difíceis de desatar.

terça-feira, 22 de março de 2011

Carnaval.

O céu se divide em cores azuis verdes amarelas laranjas e vermelhas. As nuvens velejam pelo céu em direção à noite.
Uma pipa rebola enquanto um amontoado de crianças comandam-na do chão. É uma segunda de carnaval e a rua está quase deserta.

Um vira-lata perambula pela calçada em busca dos restos que serão seu jantar. Alguém na rua liga o som e agora a voz de algum cantor de axé enche a rua, parece que as coisas vão começar a animar. Ainda estou entediada. A varanda me dá uma visão privilegiada de tudo o que acontece fora, mas melhor seria estar junto do movimento.

Dentro de casa, minhas irmãs se arrumam com direito a todo tipo de maquiagem que se possa imaginar. Todas as cores do céu vão aos seus rostos e o brilho do Sol está em seus olhos.

Eu, que não quero ficar dentro da casa, nem posso sair, escolho a imaginação.

Yes, I don't.

"Do you speak english?"

Momento de tensão. Você está sentado na cadeira da escola nova e logo no primeiro horário tem aula de inglês. O professor entra imponente e tem cara de quem gosta de ver os alunos sofrerem. Após perguntar o seu nome e de qual escola você vem, ele te pergunta se você sabe falar inglês, coisa quase tão clássica quanto os trotes de faculdades. Você sabe o que deve responder, mas sua consciência não deixa.

Afinal, você desenrola um cat, dog e beautiful, mas falar fluentemente são outros quinhentos. Mesmo com toda a sala sabendo o que você ia responder, já que você está no 2º ano do Ensino Médio, e você com as palavras na ponta da língua, saiu aquilo que você temia:
"Yes, I don't."

O choque foi parcial, já que metade da sala ria. Não, você não havia enlouquecido. Só havia sido sincero. Estranho que só um erro pudesse ser tão perfeito para essa ocasião.

Enquanto a sobrancelha do teacher vai arqueando, você trata logo de ir se explicando.
"Bem, eu sei que a resposta que dei é difícil de se ouvir, mas é o que sei que é verdade. Acredito que consigo me comunicar com algum gringo. Se isso é falar inglês, não sei, só sei que consigo fazer. Entretanto, como ainda não conclui nenhum curso e estou aqui para aprender, acredito que não."

O professor pergunta novamente, dessa vez chamando o seu nome, e você se dá conta que passou os últimos 4 minutos pensando no que seria melhor pra dizer.
"Yes, I do." Mentiu.

Melhor seria não causar tumulto no primeiro dia de aula.

sábado, 12 de março de 2011

Swinging.



Tomo impulso com as pernas e me movimento para trás, solto a força que estava fazendo e me deixo ir pra frente. O brinquedo em que estou sentada me impulsiona pra frente. Tenho que me segurar nas correntes amarelas ao lado do assento. Sinto o vento vir contra o meu rosto e meus olhos lacrimejam. Sinto como se nada pudesse me parar e a viagem não fosse ter fim.

Lembro da minha infância e de como esse era meu brinquedo favorito no parquinho de diversões. Acho que pela adrenalina liberada ao subir tão alto, pela sensação de liberdade.

Sinto que estou voltando porque meu cabelo vem à face. Parece que estou sendo puxada a um lugar conhecido. Raízes.
Que sensação de liberdade, que nada... O que importa é ter pra quem voltar no fim do dia. Ir, mas saber que um dia voltará pra onde saiu. Essa segurança é o que me faz gostar tanto.

Aliás, a adrenalina segura, firme, certa é que faz isso. Se é que é possível: a certeza. Ouço mamãe chamar e percebo que ela é a rédea que me puxa de volta pra casa, tal qual as correntes não deixam que o balanço vá longe demais. Longe como meus pensamentos que me fazem voltar ao passado.